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Patrinidade ou a odisseia de um tripai

Ser pai é a melhor experiência do mundo, imaginem ser pai de três, e logo de três rapazes! Este espaço vai ser dedicado às minhas peripécias como pai e à aventura mais alucinante que se pode imaginar...

Patrinidade ou a odisseia de um tripai

Ser pai é a melhor experiência do mundo, imaginem ser pai de três, e logo de três rapazes! Este espaço vai ser dedicado às minhas peripécias como pai e à aventura mais alucinante que se pode imaginar...

Me and myself

Sou uma personalidade complexa, admito. Ou então nem por isso. Mas que há vezes em que faço um esforço por parecer algo diferente do que sou, isso é verdade. A minha postura perante as adversidades na paternidade é um pouco reflexo desse posicionamento.

Ora veja-se uma breve comparação entre as reações do eu oficial, chamemos-lhe assim e do eu real, ou seja, o que penso mas não demonstro.

Recebemos a notícia que temos de embarcar imediatamente para a minha mulher ser operada durante a gravidez gemelar.

- Eu oficial -Rita, agora não temos tempo para chorar, choras no avião, agora temos de arrumar tudo, organizar a nossa vida, tratar de ver onde fica o Guilherme nestes dias e ir para o aeroporto.

- Eu real - Todo eu tremo por dentro, todos esperam que saiba manter a compustura, pelo que o farei, mas estou perdido como um pequeno e indefeso animal separado da sua mãe, só me apetece encolher-me e chorar também, mas não posso, sinto o peso do mundo nos ombros.

Enquanto esperamos pela hora da operação vamos almoçar no mac donald's.

- Eu oficial - todo eu sou sorriso e confiança, só de olhar para mim vê-se que as coisas vão correr bem.

- Eu real - Desfeito, penso em todas as possibilidades, tenho até medo de pensar nalgumas delas. Choro convulsivamente à mesa do restaurante.

Passam-se dois anos. Estamos de novo no hospital, felizmente por outras razões. A Rita quase chora e pede que o dia chegue ao fim depressa.

- Eu oficial- Não sei porque estás assim, que dia é hoje? Não sei do que estás a falar.

- Eu real - Tens toda a razão.Também eu quero chorar, também eu quero que o dia passe depressa, também eu quero esquecer as horas angustiantes que passámos numa sala de espera de um hospital estrangeiro, sozinhos, ou melhor, acompanhados um pelo outro. Também eu quero olhar para os nossos filhos ali a dormir no cadeirão sem me lembrar, pelo menos por um segundo, da sorte que tivemos, da benção que temos. Também eu estou grato por, ao menos, já que temos de passar por estas coisas, que estejamos juntos ali no hospital, porque separados seria muito mais difícil. Eu sei o que digo, já que os momentos mais angustiantes da minha vida foram passados naquela cadeira à porta do bloco de partos, por duas vezes. Sozinho. Mesmo sabendo que estavas ali tão perto.

Conclusão, o eu oficial é uma grandessíssima besta

 

Paputeiro

Ser pai é também ser chamado de tudo e mais alguma coisa. A mais recente do Guilherme é chamar-me paputeiro. Vá lá, a semana passada era Gordo. Quando salta para as minhas costas sou o Sparky (cavalo da Kelly no Oeste), outras vezes sou simplesmente o Paulo Jorge. Sinto uma ligeira crise de identidade...

Quem não te conheça que... faça por o merecer

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És reguila, teimoso, obstinado, casmurro, pestinha, só fazes o que queres, quando queres, és bruto, não medes a força que tens, tiras-me do sério mais depressa do que um Ferrari vai dos 0 aos 100, caramba, mais depressa do que consigo ligar uma televisão. Saltitas quando te peço para estares quieto, gritas quando peço para não fazeres barulho porque os manos estão a dormir, escondes-te quando tenho pressa para sair.

Dão-te um simples trabalho na escola, uma coisa tão simples como pegar numa moldura, sorrir e dizer o que é o amor. E o que respondes, sim, tu, insolente, o que respondes? Que o amor é dar abraços ao Martinho, ao Gonçalo, à mãe e ao pai!

O amor és tu.

És brincalhão, lutas pelo que achas que está certo, és decidido, sabes bem o que queres e quando queres, és a criança mais meiga que conheço, dás os abraços mais amorosos que se pode desejar, fazes-me rir mais depressa do que consigo piscar os olhos, caramba, fazes-me rir só de olhar para ti. Ficas sossegado quando é preciso dar comer aos teus manos, muitas vezes, pelo menos, falas baixinho quando percebes que estão a dormir, pedes-me para me baixar quando me queres sussurrar ao ouvido, e como é doce o teu bafinho quente na minha orelha, que finjo que não percebi à primeira só para sentir mais uma vez.

És tudo isto e muito mais. És meu, és tu. És um piscar de olhos com o polegar esticado, és uma mantinha em cima das minhas pernas quando vemos televisão juntos. És o cavaleiro quando sou o teu Sparky. És o sol que ilumina o dia dos teus irmãos. És o cafuné quando te levo à escola. És as fotos que tiramos contigo às minhas cavalitas e a olharmo-nos nos olhos. És uma noite passada a olhar para ti numa cama de hospital a contar cada pulsação, cada suspiro, cada ataque de tosse. És um dedinho a fazer-me cócegas. És uma palmadinha nas costas. És um orgulho. És a personificação do amor dos teus pais, és os nossos erros e inseguranças, és os nossos momentos de acerto e as nossas convicções.

O amor? O amor és tu.

13 de fevereiro

Há dois anos, o dia 13 de fevereiro foi o dia em que começámos a conquistar o direito a ter connosco o Martinho e o Gonçalo. Síndrome de Transfusão Feto-Fetal foi o nome do "bicho", foi a coisa que nos pôs a tremer, depois a nem ter tempo para pensar, pois quando apenas temos uma hipótese não se pode falar em escolha, e hoje dou graças a Deus por não a termos tido, depois rezar, tremer mais um bocadinho, rezar muito mais, e finalmente ser felizes.

Foi também o dia em que conhecemos o anjo Kypros Nicolaides, senhor que estará para sempre nos nossos corações e no nosso pensamento, tal é a gratidão que para ele temos. Gratidão que se estende a todos os que contribuíram para uma rápida e eficaz solução do problema, desde os médicos que detetaram no Beatriz Ângelo, passando pelos profissionais da MAC que nos seguiram antes e depois do dia 13 de fevereiro de 2014, a toda uma vasta equipa de profissionais no King's College que nos recebeu e acompanhou durante um dos dias mais longos da vida da nossa família.

Como que por partida do destino, dois anos passaram e a nossa dupla Martinho/Gonçalo lá nos levou a passar mais um dia 13 de fevereiro no hospital, desta feita depois de uma penosa tarde a vomitarem sem parar, a que se seguiu uma noitada de soro e soneca no cadeirão do HBA.

Devemos sempre olhar para as coisas positivas, perceber que há quem tenha muito mais e maiores razões de queixa, e acima de tudo ver que no fim e vistas bem as coisas os dias 13 de fevereiro ultimamente até acabam por correr pelo melhor para nós e proporcionar-nos um dia de São Valentim no mínimo alternativo.

Mas que estas coisas nos cansam, isso cansam.