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Patrinidade ou a odisseia de um tripai

Ser pai é a melhor experiência do mundo, imaginem ser pai de três, e logo de três rapazes! Este espaço vai ser dedicado às minhas peripécias como pai e à aventura mais alucinante que se pode imaginar...

Patrinidade ou a odisseia de um tripai

Ser pai é a melhor experiência do mundo, imaginem ser pai de três, e logo de três rapazes! Este espaço vai ser dedicado às minhas peripécias como pai e à aventura mais alucinante que se pode imaginar...

We can be heroes

 Se há coisa que enquanto pais conseguimos sem grande esforço, é ser verdadeiros heróis para os nossos filhos. O desafio está em manter essa magia durante muito tempo, se possível, eternamente.

Por enquanto os meus filhos ainda me veem com esses olhos. O Gonçalo então, leva ao extremo essa vontade de ver no pai um herói. Já partilhei há dias o episódio em que vendo na televisão o Daniel Craig, versão 007, com uma morenaça numa mão e uma loira (mini) na outra, se pôs a dizer que era o pai que estava na tv.

Mas há uns tempos captei em vídeo uma verdadeira demonstração de fanatismo velocipédico do Gonçalo. Estava eu a ver os mundiais de ciclismo, quando o Gonçalo se põe a gritar furiosamente para a televisão, incentivando...o pai!

Que eu possa ser o herói deles durante muito tempo, que o faça por merecer...

 

 

 

Guia Prático de introdução à paTRInidade Parte 2

Continuando o indispensável guia prático, passo agora a definir mais alguns conceitos que sofrem profundas alterações na passagem da vida sem filhos para a vida de tripai. Este capítulo do guia é dedicado aos vícios de jovens casais sem filhos, que se evaporam em poucos meses depois de se iniciarem na paternidade.

Mesa de apoio

A chamada mesa de apoio, ou mesa que está à frente do sofá, é um dos elementos da casa que rapidamente se torna num bem dispensável ou até numa arma (nalguns casos de arremesso). Consta que em tempos esse acessório servia para ter jornais, revistas e livros. Na realidade por vezes não se vê debaixo da montanha de plasticina, carros, legos, filhos, ou instrumentos musicais para crianças (estes quase merecem um capítulo próprio).

Praia

Campo de tortura. A simples ideia de deslocação até à praia pode ser explicada como forma de autopunição ou expiação. Há tripais com um refinado humor negro, que ainda se dão ao desplante de ir à praia com jornais ou livros, acessórios que apenas pesam no saco e não têm qualquer hipótese de lá sair antes do regresso a casa. A hora ou horas que se passam na praia são um teste à visão periférica, quando os três filhos decidem aplicar uma tática de batalha denominada nos manuais como, cada homem por si. Nesta arriscada manobra cada um desata a correr para um sítio diferente, o que faz com que os pais tenham de tomar decisões rápidas, nomeadamente de avaliar na hora qual o filho mais lento ou o que não está a correr em direção à água.

Ouvir rádio no carro

Por onde começar?... A pior invenção de sempre para um tripai é o rádio do carro. Seria melhor que aquele espaço fosse utilizado para suporte de garrafas de água, um microondas portátil, um minifrigorífico, qualquer coisa menos um rádio. Não só é absolutamente impossível ouvir música, notícias, alertas de trânsito ou relatos de futebol, uma vez que quando estes sons saem das colunas do carro são virtuosamente abafados por choros, gritos ou discussões violentíssimas no banco de trás, como quando é possível ouvir o que por lá toca é algo como os caricas, a xana toc toc ou equivalentes formas de atrocidades auditivas, acompanhadas em coro pelos pequenos tenores esganiçados. Pior do que os escândalo dos gases da VW só mesmo a invenção do autorádio.

Paredes da Casa

Ou galerias de arte urbana. A dada altura da paTrinidade, ou até da monopaternidade, os filhos vão decidir aplicar toda a sua criatividade na remodelação estética da casa. E que melhor do que começar pelas paredes. Consta que há casas com filhos em que as paredes permanecem intocadas pelos pequenos donos da casa, mas na verdade nunca alguém viu tais raridades. Autênticas obras de arte, entre o neoclassicismo, o cubismo e o surrealismo podem ser encontradas nas paredes da casa e são o primeiro (e irreversível) passo dos pais em direção à insanidade.

Reflexos

Um tripai desenvolve capacidades que não sabia ter. Passa a ter reflexos dignos de um experimentado agente da Mossad e a velocidade de reação de um agente do Matrix. Quando virem uma criança a cair do sofá não duvidem que no milésimo de segundo antes do contacto com o chão vai aparecer não se sabe bem de onde a mão de um pai ou de uma mãe, que resgata o incauto aventureiro de um doidoi da pior espécie. À vista desarmada o desempenho de um tripai em ação pode causar a sensação que este tem quatro ou cinco mãos, tal é a velocidade estonteante dos seus movimentos.

Cozinha

A hora da refeição foi em tempos, para os jovens casais recém-casados, um espaço onde imperava o romantismo. Uns anos mais tarde é ligeiramente diferente. Para os tripais, vá, tenho de confessar, para a trimãe, é um ponto de paragem diário para fazer sopa. As criaturinhas ingerem sopa em quantidades industriais, pelo que recomenda-se adaptar a cozinha e as panelas, sendo que o tamanho adequado é o utilizado numa cantina comunitária. Os tripais passam tanto tempo na cozinha, entre cozinhar as refeições, preparar os biberãos, as horas das refeições, que não é completamente de descartar a colocação em pontos estratégicos de cadeiras confortáveis ou pequenas almofadas para uma passagem pelas brasas entre produção de sopas ou no minuto e meio em que o leite aquece. As refeições, essas, são um poço de incerteza, um autêntico filme de suspense, tanto podem correr muito bem como podem terminar com a cozinha transformada no cenário da Guernica.

Pequeno-almoço fora

A dada altura da paTRInidade, todos os incautos pais decidem incorporar os seus filhos nos seus vícios ou pequenos prazeres da vida anterior. Tomar ocasionalmente o pequeno-almoço é uma dessas ocasiões. Em média, um casal de tripais perde por pequeno-almoço fora certa de 5,2 kgs, entre sprints em direção à estrada quando um dos pequenos decide testar a velocidade de reação dos pais, passando pelo stress despendido na hora de mediar a utilização do cavalinho à porta do café (a negociação pode ser semelhante à que decorre numa situação de reféns), acabando na infrutífera tentativa de manter toda a família sentada à mesa. Uma das muitas atividades radicais para pais.

Ida às compras

A ida às compras é uma aventura com muitos pontos de contacto com a descrita no ponto anterior. Há casos de mães que decidem cometer a loucura de ir sozinhas às compras com os 3, nesses casos o carrinho do Continente serve de depósito para crianças, e a probabilidade de chegar à caixa com as compras todas é remota.

Guia prático de introdução à paTRInidade Parte 1

Tentar explicar a experiência da patrinidade a alguém que não tem a felicidade de ser pai não é fácil. É um mundo diferente, até nós que um dia não fomos pais já não sabemos muito bem o que é viver sem filhos, quando cruzamos esta linha dificilmente conseguimos lembrarmo-nos da nossa vida anterior.

Por isso, e com grande espírito de missão, decidi iniciar a criação de um guia prático de introdução à patrinidade. Vou introduzir alguns termos e definições que podem ajudar, espero eu, compreender o que isto é. Comecemos por algumas coisas que existem nos dois mundos, mas claramente têm significados e funcionalidades diferentes:

Cama

Suporte onde pousamos a roupa enquanto tomamos banho de manhã. Pode também ser utilizada para nos sentarmos quando estamos a calçar as meias e, em breves instantes durante a noite, pode em alguns casos e casas com 3 crianças abaixo dos 3 anos ser utilizada para nos recostarmos por um período máximo de 5 minutos tendo em conta as seguintes recomendações; não fazer qualquer som ao deitar, não fechar por completo os dois olhos, não adormecer profundamente. Pode ser habitualmente encontrada no quarto do casal, mas é claramente um acessório dispensável em casas com pouco espaço.

Televisão

Caixa mágica para a qual apenas olhamos na hora de ligar, escolher entre o Panda ou o Disney Junior, e na hora de desligar. Consta que, mas é algo que os tripais não têm forma de comprovar, possui outros canais, designadamente de informação, séries ou filmes. Repito, não há forma de comprovar se esses aparelhos possuem essas habilitações.

Sofá

Ponto de Encontro para os pais a horas tardias. Nos breves minutos em que os três filhos estão a dormir ao mesmo tempo é comum os pais sentarem-se e conversarem sobre o seu dia e sobre as questões familiares. Reproduz-se aqui um diálogo habitual: Pai - Como foi o teu dia? Mãe - Foi bommmm (bocejo) E o teu? Pai - Zzzzzz Mãe - És sempre a mesma coi.. Zzzzzz Diálogo normalmente interrompido pelo choro vindo do quarto.

Casa de banho

Ponto de encontro de toda a família. A única possibilidade de um tripai conseguir estar sozinho neste espaço é colocar todos no carro, dizer que se esqueceu de alguma coisa em casa, tipo o telemovel ou a carteira, e ir a correr para casa e passar pelas brasas uns cinco minutinhos na sanita. Alguns pais mais ousados tentam o arriscadíssimo número de tentar fechar-se na casa-de-banho com a família em casa, o que pode provocar uma severa crise conjugal.

Banho

Ver e imaginar o item anterior. Mais de um minuto no banho sem alguém a bater a porta ou colado ao vidro a dizer adeus e a bater com as mãos no vidro é caso para suspeitar de problemas sérios nalguma divisão da casa, provavelmente o pai amordaçado e amarrado à gaiola dos piriquitos ou trancado na varanda.

Cinema

Do Grego Kinema, movimento.é a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento, assim como a indústria que produz estas imagens.Consta que há pais que frequentaram salas escuras onde são exibidos filmes, salas essas que são apelidadas de cinemas. Não há qualquer testemunho vivo de um tripai que comprove a existência desses espaços. Qualquer semelhança de ida ao cinema só pode ser confundida com uma viagem da cozinha até à sala para ver um episódio da doutora brinquedos ou, e isso só com muita sorte, poder assistir ao Rei Leão ou ao Carros na companhia dos filhos. A manutenção dos filhos em frente à televisao o tempo suficiente para assistir a um filme completo é forte indício de febre ou de estar a chocar alguma coisa.

Arrumação

Mito Urbano. Chegam relatos de casas de casais sem filhos ou com filhos que ainda não saem do berço em que se pode passear pela casa sem pisar 33 carrinhos do faísca mcqueen, todos da mesma personagem, todos diferentes, todos identificados ao pormenor pelo dono. Ainda relatos (pouco credíveis) de que a sala de estar não é um museu vivo do brinquedo, que nos podemos sentar (brincadeirinha) no sofá sem o fazermos em cima de um peluche que fala, de um carro dos bombeiros que

Férias

Oportunidade para colocar em prática todas e quaisquer técnicas de relaxamento aprendidas ao longo da vida. Outra capacidade altamente valorizada neste período é a capacidade de organização, muito útil na hora de colocar um T2 na bagageira do carro. É particularmente útil neste momento evitar deixar uma garrafa de água, um brinquedo favorito ou outro item indispensável nas primeiras coisas a arrumar na mala do carro, sendo que o descurar deste pormenor pode levar a parar numa estação de serviço, descarregar tudo, tirar o item, e voltar a carregar, sendo que nesse momento metade da carga já não cabe na bagageira e deve ser deixada no contentor mais próximo.

Trabalho

Local pelo qual ansiamos no período em que estamos em casa, com particular destaque para o fim-de-semana. É comum encontrar jovens casais, tripais, a suspirar pelos cantos da casa, imaginando a secretária do gabinete do trabalho, a máquina do café, ou até as reuniões. Em alturas de férias, há casos, os mais graves, em que estes tripais são frequentemente ouvidos a telefonar para o trabalho para matar saudades.

to be continued...

 

Conto

Conto escrito para os meus filhos

 

À noite no bosque, há lá pirilampos, à noite no bosque, há boa energia, à noite no bosque brincamos cantamos, à noite no bosque há muita magia. E vêm as fadas, e vêm duendes, e os meninos brincam contentes.   

 

Desde que se lembrava que Guilherme ouvia esta cantilena antes de adormecer. – Pai, canta a canção do bosque – pedia, e o pai sentava-se na beira da cama, aconchegava os lençóis, passava a mão pelos cabelos do filho e cantava, em tom de embalar, cada vez mais baixinho, parava, e Guilherme pedia mais, outra vez, e mais, até que se mexia cada vez menos e, mesmo antes de se deixar cair no sono apenas tinha tempo para ver o pai piscar-lhe o olho.   

Depois era transportado para o mundo dos sonhos, sentia-se feliz ao acordar, sabia que tinha sonhado com coisas boas mas não sabia contar, não se lembrava dos sonhos. Apenas se lembrava da música, o piscar de olho do pai, e depois uma alegria enorme, e imagens soltas de cor, de brincadeira, pequenas figuras a saltar por todo o lado e pouco mais.   

Todos os dias o pai cantava, e todos os dias Guilherme sonhava. E assim foi durante uns tempos, até que a vida de Guilherme levou uma grande volta. Teve não um, mas dois irmãos de uma só vez! E quando os manos Martinho e Gonçalo passaram a dormir no seu quarto, o pai passou a cantar para os três.   

Aos poucos Guilherme começou a lembrar-se cada vez mais dos sonhos, e depois das cores, da brincadeira, das pequenas figuras a saltitar, começou a lembrar-se de uma luz muito forte, de um lugar muito bonito, cheio de árvores muito grandes. E cada vez mais esses sonhos faziam Guilherme sentir-se melhor.   

Chegou uma altura em que os sonhos pareciam verdadeiros, e quando Guilherme acordava quase conseguia lembrar-se de tudo, já não era só ele que passeava naquele bosque encantado, mas estava acompanhado dos manos Martinho e Gonçalo. Quando acordava ainda olhava para os manos para ver se eles se lembravam tão bem como ele, como se fosse possível que os três tivessem exatamente o mesmo sonho, mas os irmãos não davam sinais de se lembrar de nada, e ele nada dizia.  

Assim foi crescendo e o pai lá ia cantando a canção do bosque para os três, quando chegava a hora de dormir, depois de passar a mão pelo cabelo dos três e de piscar o olho a cada um deles, como se imaginasse que entravam num sonho meio real, embalados por aquela canção de sempre…  

Num certo dia o ritual cumpriu-se mas dessa vez o sonho pareceu mais real do que nunca. Depois do pai cantar a canção do bosque, e logo a seguir ao piscar de olho, Guilherme sentiu-se acordar repentinamente, mas não estava no quarto, estava sim no bosque da canção. Simplesmente soube que estava nesse bosque, não sabia explicar, mas era sem dúvida este o lugar que o pai cantava.  

Não era ainda noite, mas já não era bem dia, um lusco-fusco deixava passar os últimos raios de sol entre as folhas das árvores, batendo no chão como que indicando o caminho para dentro do bosque. Quando se preparava para avançar Guilherme percebeu que não estava sozinho, ao seu lado e com o mesmo ar de espanto estavam os manos.  

- Vocês estão mesmo aqui – perguntou Martinho ainda sem acreditar – não estamos a sonhar?  

- Acho que é mesmo verdade, era deste lugar que o pai falava na canção do bosque não era mano – perguntou Gonçalo.  

Guilherme só foi capaz de acenar, e com um braço em cima de cada um dos manos guiou-os para o espaço mágico que o pai lhes descrevera numa canção. Simplesmente soube que a qualquer momento a noite ia cair e veriam pirilampos, fadas e duendes, e soube que mesmo que acordassem a qualquer momento, não se iam esquecer que tinham estado ali juntos. Enquanto entravam no bosque foram passando pelos animais do bosque que lhes faziam vénias e eles respondiam com ar solene.  

A noite caiu entretanto, mas a lua cheia e muitas luzinhas a piscar entre as árvores iluminavam o bosque. Com o anoitecer algumas coisas que não davam para ver à luz do dia apareciam, e pequenos duendes trabalhavam entretidos na beira do caminho, ou no cimo de mágicas casas nas árvores que não se viam antes mas agora surgiam iluminadas.  

De uma dessas árvores saltou um duende meio palmo mais alto que os outros, o que mesmo assim o fazia ter metade da altura do Guilherme, e até mesmo do Martinho e do Gonçalo que cada vez estavam mais próximos do tamanho do irmão mais velho. Os três deram um salto para trás, assustados porque não contavam que aquele duende lhes caísse aos pés vindo sabe-se lá de onde.  

- Estava a ver que nunca mais apareciam meninos – disse o duende com ar meio zangado, meio gozão – parece que o Gonçalo hoje não queria adormecer não era? Vamos, não há tempo a perder. 

Dito isto largou a correr a puxar pela mão do Martinho e todos o seguiram, saltando por cima das pedras que surgiam no caminho, fazendo grandes razias a pequenas fadas que voavam contentes de um lado para o outro. 

Brincaram como não tinham memória, tentavam apanhar as fadas que os deixavam chegar perto e depois largavam um risinho maroto e fugiam de novo. Escondiam-se do duende que fingia estar zangado e protestava porque não havia tempo a perder, mas no fundo no fundo queria era brincar e procurar os meninos.  

Numa dessas brincadeiras, Guilherme escondeu-se tão bem que quando se apercebeu estava num sítio onde nunca tinha ido, era um lago lindo e enorme. Tinha alguns patos e cisnes, mas todos pareciam dormir, no meio do lago a lua parecia ver-se ao espelho, e a calma que ali se via era bem diferente da alegria que estava bem no centro do bosque, onde os meninos brincavam.

Quando olhou com mais atenção, Guilherme viu que havia outra luz que entrava pelo lago dentro e virou o olhar para perceber de onde vinha essa grande luz. Sentado, à beira do lago, estava o maior pirilampo que Guilherme já vira a olhar na direção do menino. Quando os olhares se encontraram o pirilampo levantou uma enorme asa e chamou Guilherme, que encantado por aquele pirilampo gigante foi sem hesitar.

- Olá Guilherme, não estás a brincar com os teus amigos?

Guilherme nem estranhou que o grande pirilampo soubesse o seu nome, tudo parecia fazer sentido naquele bosque, e não valia a pena fazer muitas perguntas, certamente tolas.

- Escondi-me tão bem deles que sem saber como vim parar aqui…

O grande pirilampo riu e disse – não sabes quem eu sou, mas eu sei quem tu és. Todos os dias vens com os teus irmãos, e animam o meu bosque…

- O seu bosque? Este bosque fantástico é seu? – Guilherme estava verdadeiramente maravilhado por conhecer o dono daquele lugar mágico.

- Sim, este bosque é meu, e é teu, dos teus irmãos, das fadas e dos duendes também, e de todos os que vêm por bem. Por aqui chamam-me Rei pirilampo, mas há muito que perdi o direito ao título, sou o último pirilampo por estas bandas, por isso ser rei de mim mesmo é coisa que não me alegra.

Guilherme esperou um pouco para falar, parecia-lhe inconveniente interromper um Rei, ainda para mais quando este falava num tom tão solene e triste. Mas, como todos os meninos, Guilherme não aguentou muito…

- O último pirilampo, Rei?

- Sim Guilherme. Sou o último da minha espécie. Em tempos, quando a noite caía, a luz de todos os pirilampos juntos neste bosque era mágica, parecia dia. Essa luz deixava que todos pudessem andar a brincar no bosque, homens, pirilampos, fadas, duendes. Tenho saudades desses tempos, sabes – dizia mais para si, do que para o menino que escutava sem se atrever a interromper – havia boa energia no bosque, os meninos brincavam e cantavam, todos juntos éramos felizes…

- O que aconteceu?

O Rei pirilampo pareceu não ouvir a pergunta, pois demorou largos minutos a olhar para o lago antes de responder, como se decidisse se devia dizer alguma coisa ao menino.

- A noite está a acabar, gostei de falar contigo, lembras-me alguém, não sei bem quem. Já foi há tanto tempo, penso…lembro-me de estar aqui neste sítio, era bem mais novo, ninguém me chamava rei na altura…Mas não pode ser, não podias ser tu, já passou tanto tempo, terias de ter crescido…mas a tua cara…esta minha cabeça cansada não me deixa pensar. Está na hora de ir descansar, e tu tens de acordar para ir para a escola, vai…

E antes que Guilherme pudesse protestar, a grande luz do Rei Pirilampo já se apagara, a lua já não se via ao espelho no magnífico lago, e o céu começava a ficar pintado com as primeiras cores do dia. Sem saber bem como Guilherme estava de novo na sua cama e a olhar para ele, com ar assustado mas como quem assinou um acordo secreto do qual não se pode falar em voz alta, os manos olhavam para ele, sentados nas suas camas.

Esse dia e os seguintes passaram a voar, os três irmãos pareciam não andar com a cabeça no lugar, e quando os pais pensavam em dizer-lhes que estava na hora de ir para a cama, já os três estavam deitados, com os dentes lavados, e à espera que o pai chegasse. Quando este entrava no quarto a surpresa não podia ser maior, nunca os filhos tinham ido tão voluntariamente para a cama… Depois, invariavelmente passaram a pedir a uma só voz – Pai, canta a canção do bosque! – e o pai cantava com um sorriso nos lábios…

Todas as noites o pai cantava, e, no fim, quase antes de adormecer, Guilherme via o pai piscar-lhe o olho. Depois entrava no bosque, com Gonçalo de um lado e Martinho do outro. A cada dia o bosque parecia ter um pouco menos de luz, um pouco menos de boa energia. Mesmo o duende refilão que todos os dias os recebia parecia um pouco menos refilão, o que não parecia a Guilherme uma boa notícia, sem saber explicar porquê…

Guilherme tentava todos os dias encontrar o lago sem sucesso, queria voltar a falar com o Rei Pirilampo, mas não conseguia. Olhava para as fadas, quando estas julgavam que ele não estava a escutar, e via-as a falar umas com as outras com um ar nada próprio de fadas, um ar carregado, preocupado. Quando se apercebiam que Guilherme as observava mudavam na hora de cara, e rodopiavam com o seu ar engraçado, mas o menino sabia lá no fundo que alguma coisa não estava bem, mas não sabia a quem perguntar, não sabia com quem falar… Os manos ainda eram muito pequenos, ainda estavam a viver num mundo perfeito de ilusão, e ele não os queria preocupar, podia ser só ele a imaginar coisas…

Mas depois olhava para os duendes do bosque e estes estavam com caras ainda mais zangadas que nos dias habituais, irritadiços, a refilarem entre si mais do que o costume… Se ao menos pudesse encontrar o Rei Pirilampo…

Passaram semanas, meses, e o bosque perdia todos os dias um pouco mais da sua magia. As árvores que em dias normais faziam guarda de honra aos caminhos, curvando-se para os meninos passarem enquanto se dirigiam para as suas brincadeiras, estavam agora curvadas mas com um ar triste, como se estivessem curvadas porque já não tinham forças para se endireitar… As fadas pouco ou nada voavam, e os risos maravilhosos que normalmente largavam eram cada vez menos maravilhosos, cada vez se riam menos…

Todos os dias o duende refilão esperava os meninos e encaminhava-os por aquele caminho, que dava para o centro da brincadeira no bosque. Um certo dia quando chegaram ao bosque o duende refilão não estava lá, os três irmãos ficaram sem saber o que fazer, mas Guilherme já conhecia o caminho de cor e salteado. Disse aos irmãos – vão vocês por ali, onde as árvores se curvam, não há que enganar, passam as três pedras, os arbustos onde costumam jogar às escondias e chegam ao centro do bosque. Eu vou só ver uma coisa e já vos apanho.

Ainda inocentes os dois irmãos, Martinho e Gonçalo, seguiram sem questionar o mano mais velho, para eles nem era nada estranho que o duende refilão ali não estivesse, queriam era brincar, e não havia tempo a perder.

Guilherme contudo estava preocupado. Decidiu tomar um caminho diferente do habitual, e lá foi saltitando entre pedras e pedregulhos, numa estrada de gravilha que teria de ir dar a algum lado, ninguém se lembraria de fazer uma estrada no meio de um bosque encantado se não fosse para chegar a algum lado, pensou.

Quando estava quase a desistir, já cansado de andar sem saber para onde, Guilherme começou a ouvir vozes conhecidas, o caminho acabava no lago, o mágico lago onde conhecera o Rei Pirilampo. Antes de os ver, percebeu que as vozes eram do rei e do duende que todos os dias, menos aquele, recebia o Guilherme, o Gonçalo e o Martinho. Falavam baixo, mas o tom era preocupado. Guilherme ouviu pouco do que diziam, mas percebeu algumas frases soltas.

- …mas fala com ele – pedia o duende.

- Não posso – respondia o rei – é muita responsabilidade para uma criança…

- Ele pode ser só uma criança, mas não é tolo, e já percebeu que a magia do bosque se está a perder.

- Tens de ir, não tarda nada eles estão aí, e vão começar a desconfiar se não estiveres lá para chegar – ao dizer estas palavras o rei virou-se para o caminho, onde viu surpreendido o pequeno Guilherme a olhar para ele com ar inquisitivo.

Guilherme aproximou-se a medo, mas não havia volta a dar, não se tinha escondido e agora que o tinham visto tinha mesmo de se aproximar.

O duende não disse nada, ficou a olhar para o chão como se fosse a primeira vez que via aquele chão.

O Rei Pirilampo suspirou e disse – Olá Guilherme, estavas aí há muito tempo?

- Há tempo suficiente para perceber que alguma coisa não está bem. O que se passa – perguntou o menino?

O Rei Pirilampo olhou para o menino, depois para o duende, depois passou o olhar pelo lago onde se prolongou por alguns segundos, como se decidisse o que dizer, até que pareceu tomar uma decisão.

Quando falou a sua voz era grave e solene.

- Guilherme, este bosque existe desde que há memória, muito antes de ti, dos teus pais, ou até dos teus avós. Este bosque representa tudo o que de bonito há no mundo, a beleza, a alegria, a imaginação… - disse esta última palavra um pouco mais baixo, como se ao dizer fosse provocar uma grande revolução naquele lugar cada vez menos mágico – Sabes, estou aqui desde o início dos tempos, conheci milhões de crianças, alguns como tu, curiosos, alegres, mas só me lembro de um menino mesmo igual a ti. Estou desde o dia em que falámos a tentar lembrar-me do nome dele, mas a magia está a desaparecer deste bosque, e com ela a minha memória, as minhas forças… Tenho feito um esforço porque sinto que isso pode ser importante, mas talvez seja só a minha cabeça tonta de pirilampo velho a imaginar coisas.

Sinto que a minha luz está a apagar-se, e temo que com ela se apague de vez a magia deste bosque. Sei que te apercebeste do que se tem passado, que vês as fadas tristes, os duendes ainda mais zangados do que o habitual, o que tu não sabes é que dantes este bosque todos os dias se enchia de milhares de crianças como tu, agora só tu, o Martinho e o Gonçalo aparecem, e mesmo vocês qualquer dia deixam de vir…

 - Não – interrompeu o menino, mas o rei levantou uma asa a pedir para ele o deixar continuar, e Guilherme disse que sim num aceno impercetível, e voltou a ouvir…

 - Qualquer dia tu, o Gonçalo e o Martinho vão crescer e então também vocês vão deixar de acreditar na magia do bosque, vão passar a ser homens e a acreditar só no que os vossos olhos veem, e não no que as canções de embalar vos dizem. Aí a luz vai se apagar, e com ela a magia do bosque…

Guilherme tentou protestar mas o rei continuou…

 - …sei que o teu coração é puro, como o dos que te antecederam, e não é por mal que vais esquecer, tu ou os teus irmãos. Há uma mensagem que sempre tentámos passar para todos os que passaram por este bosque, mas essa mensagem não pode ser dita, explicada, tem de ser entendida por vocês, nas brincadeiras, na boa energia que sentem aqui… Acho que é tarde demais, o duende acha que não, incentivou-me a ter esta conversa contigo, mas respondi-lhe que tu não sabias, não podias saber…

- Diga-me – pediu o menino.

- Não posso, tens de ser tu a descobrir, antes que seja tarde demais. Por todos os meninos que passaram por este bosque, sim, por todos, em especial por ti e por aquele menino que tu tanto me fazes lembrar, tens de ser tu… Se descobrires talvez haja solução, se não conseguires, não te preocupes, pois vais esquecer como todos antes de ti, e tu, o Gonçalo e o Martinho serão os últimos meninos a conhecer este bosque. Gostava de te pedir que não deixes morrer o espirito do bosque, mas não o posso fazer, é responsabilidade a mais para pôr em cima dos teus ombros pequeninos, se eu com estas asas gigantes não o consegui, como posso pedir que o faças? Não posso…

- Por favor, peça-me o que quiser, eu faço tudo o que quiser para salvar a magia do bosque… Pelo menos dê-me uma pista… - Guilherme andava de um lado para o outro, dando pontapés nas pedras que lhe apareciam ao caminho, como esperando encontrar a solução debaixo de uma delas. Quando levantou os olhos a luz do Rei Pirilampo já se apagara, e este não estava mais à sua frente. Guilherme percorreu o lago com os olhos mas o rei já partira, e só lá estava o duende zangado.

- Guilherme, também não te posso dizer o que só o teu coração pode encontrar, mas vou-te dar uma pista, se bem que temo que seja tarde demais. Procura no teu coração o sorriso que te embala, o olho que te guia, a canção que te fala, sobre um mundo de magia.

Dito isto o Duende deu um salto e desapareceu por entre as árvores antes que Guilherme tivesse tempo de pedir para repetir. Assustado e com medo de se esquecer fez o caminho de volta a repetir vezes sem conta o que o duende lhe dissera, uma e outra vez, até que voltou ao sítio onde todos os dias começava a aventura no bosque com os irmãos. Estes estavam sentados em cima de uma grande rocha à espera do irmão.

Guilherme relatou tudo o que acontecera, começando pela pista do duende, para que mais alguém soubesse e o risco de se esquecer ser menor. Martinho e Gonçalo ouviram atentamente tudo o que o mano lhes contou, e a expressão nas suas caras ficou cada vez mais grave, até que Guilherme parou e ficaram os três em silêncio.

- Ele só pode estar a falar do pai – adiantou-se Gonçalo.

- Sim, também pensei nisso – admitiu Guilherme – mas e então? Como é que o pai nos pode ajudar, nós estamos aqui, e ele está em casa a dormir.

- Tens de falar com ele – disse Martinho.

- Vai dizer que sou tontinho, que estou a ver desenhos animados a mais – respondeu Guilherme.

Depois de muito discutirem, os três irmãos chegaram a um acordo. Gonçalo e Martinho insistiam para que o mano mais velho falasse com o pai, este dizia que o pai lhe ia chamar tonto, que não ia acreditar em nada. Mas nestas coisas das crianças, como nas dos adultos, a democracia venceu, e Guilherme lá concordou em falar com o pai.

Quando acordaram o pai estava no quarto, e Gonçalo e Martinho aproveitaram a oportunidade para saltar das camas e deixar o pai e o irmão mais velho sozinhos no quarto. O pai olhou para o filho e percebeu que este lhe queria dizer alguma coisa.

- O que se passa filho? Sabes que podes dizer o que quiseres ao pai.

Guilherme estava com medo, mas as palavras do pai tiraram-lhe todas as dúvidas e começou a contar tudo, descreveu o bosque, o duende, o Rei Pirilampo, as fadas, as brincadeiras, a conversa no lago, e a pista do duende zangado. O pai ouviu tudo sem interromper, e por um breve instante Guilherme foi capaz de jurar que viu nos olhos do pai que este sabia do que o filho estava a falar. No entanto, ainda antes do pai começar a falar abanou a cabeça, e Guilherme percebeu que nada de bom podia vir dali…

- Filho acho maravilhoso que tenhas uma imaginação tão grande. Para muitas coisas que fazemos na vida é muito importante ter uma imaginação como a tua, mas não te podes deixar levar em demasia por estas brincadeiras. Vá, está na hora de te levantares, de te arranjares e ires para a escola, onde os meninos nunca vão faltar e a imaginação muito menos. A magia não existe…

Guilherme foi incapaz de responder, pôs a melhor cara que conseguiu, acenou que sim e saiu do quarto deixando o pai a olhar para o vazio. Ainda olhou para trás e viu que o pai parecia ponderar no que o filho lhe contara, até que este sorriu e abanou a cabeça.

A escola nesse dia parecia não terminar, Guilherme passou o tempo todo a escrever a pista do duende no seu caderno, como se de alguma maneira a solução fosse aparecer nas linhas que escrevinhava.

Num dos intervalos os três irmãos juntaram-se e Guilherme contou como correra a conversa com o pai, para desânimo dos manos. Ficaram em silêncio sem ideias, e a matutar na pista do duende.

Só se – começou Martinho a medo…

- DIZ!!! – Gritaram os irmãos a uma só voz.

- Ele diz para procurares no teu coração o sorriso que te embala e a canção que te fala num mundo de magia. Não é preciso ser um génio para perceber que está a falar da canção do bosque, e quem te canta é o pai. Eu já reparei que mesmo antes de adormeceres o pai, todas as vezes, te pisca o olho, e tu cais no sono. Esta noite vais fazer de maneira diferente, quando o pai entrar no quarto para cantar a canção do bosque nós fingimos que estamos a dormir, depois do pai sair tu cantas para nós e entramos no bosque. Depois tens de arranjar maneira de seres tu a cantar para o pai, ele tem de ir ao bosque, é a única maneira.

Guilherme e Gonçalo acharam que a ideia era tão doida que podia até resultar, e assim foi. Depois do jantar, e cumprindo o ritual recente, os três irmãos apressaram-se a ir para a cama, mas quando o pai entrou no quarto, os três dormiam serenamente, pareciam uns anjinhos. O pai pensou que estes deviam estar mesmo muito cansados da escola, e não estranhou. Já com a luz apagada, Guilherme começou a entoar baixinho a canção do bosque para os manos, e só parou quando percebeu que estes já dormiam profundamente. Ao perceber que os pais iam para a cama, e depois de fazer um grande esforço para se manter acordado, Guilherme acendeu uma luz do quarto, pois sabia que o pai iria ver o que se passava.

- Pai – disse Guilherme quando o viu entrar no quarto – não consigo dormir. Deita-te aqui ao pé de mim.

- Queres que te cante a canção do bosque filho?

- Quero sim, mas deita-te aqui comigo.

O pai estranhou mas aceitou o pedido do filho, e ficaram deitados lado a lado, até que o pai começou a entoar.

- À noite no bosque, há lá pirilampos, à noite no bosque, há boa energia, à noite no bosque brincamos cantamos, à noite no bosque há muita magia. E vêm as fadas, e vêm duendes, e os meninos brincam contentes.   

O que o pai não contava era que Guilherme começasse também ele a cantar, e num dueto improvisado lá foram, pai e filho, embalando-se um ao outro. O pai começou a ficar estranhamente sonolento, incapaz de resistir, e quando já só murmurava a canção do bosque e os olhos já se esforçavam por se manter abertos, Guilherme viu a sua oportunidade e sorriu, piscando o olho para o pai. Logo caíram os dois no sono e o inesperado deu-se…

Quando abriu os olhos Guilherme viu os irmãos a olhar com ar grave para ele, ao lado estava o duende com cara de quem tinha estado a chorar.

- O que se passa? – perguntou Guilherme.

- O Rei Pirilampo…a luz está a desaparecer… - respondeu num murmúrio o duende. Vejo que não conseguiste, vamos, ele gostaria de te ver mais uma vez.

Os três irmãos e o duende começaram a percorrer juntos o caminho de gravilha, cabisbaixos. Sentiam que era a última vez que faziam aquele caminho, a última vez que viam aquele bosque, a última vez que Guilherme ia ver o Rei Pirilampo…

- Meninos – disse uma voz inconfundível – não esperam por mim?

Ao ouvir aquela voz que todos os dias os embalava, os três irmãos olharam uns para os outros e viraram-se ao mesmo tempo ainda sem acreditar. O pai olhava para eles com um sorriso estampado no rosto, que só desapareceu quando os três saltaram para cima dele, ficando enrolados no chão do bosque.

- Acreditaste – disse Guilherme com a voz embargada e os olhos cheios de água.

O pai só sorriu e pôs Guilherme às cavalitas enquanto levava Gonçalo num braço e Martinho no outro. Piscou o olho ao duende e começaram os cinco a fazer o caminho, agora com muito mais confiança, apenas o duende se mantinha apreensivo.

Foram encontrar o Rei Pirilampo sentado à beira do lago, quase apagado, sem aperceber sequer que o grupo se aproximava. Quando finalmente deu pela sua presença, olhou para todos, um por um, até se fixar no rosto do pai, depois em Guilherme, depois novamente no pai.

- Era isso – disse com voz emocionada – tu – falava em direção ao pai. Eras tu quem o Guilherme me lembrava, foi já há tanto tempo que te sentaste aqui comigo, a falar sobre magia, sobre fadas e duendes, sobre boa energia e meninos a brincar e a cantar… Lembras-te?

- Agora lembro-me – respondeu o pai dos meninos, largando a correr para dar um forte abraço ao Rei Pirilampo – graças aos meus filhos que me trouxeram de volta para este lugar maravilhoso. Já te vi com melhor ar rei, o que se passa?

- A minha luz está a apagar-se, a magia deste bosque estava na cabeça das pessoas, de todas as pessoas. Depois a imaginação das pessoas foi-se perdendo, e ficou apenas na cabeça das crianças. Mas agora no teu mundo, o dos Homens, os adultos não têm tempo para passar para as crianças as histórias, as músicas, tudo o que ajuda a criar a imaginação, a magia. Este bosque quase já não recebe crianças, e sem elas vai perder-se. Quando as crianças deixarem de acreditar, quando os pais deixarem de lhes contar histórias, a magia vai morrer. Há muitos anos que nenhum adulto entra aqui no bosque, estava escrito nas árvores deste lugar que quando os adultos deixassem de acreditar o suficiente para aqui chegar, seria um pequeno passo até tudo se perder. Agora vai, volta para o teu mundo, e deixa-nos ficar aqui esquecidos.

- Rei – disse o pai dos meninos – eu estou aqui, é verdade que estive ausente, que me esqueci, mas lá no fundo alguma coisa ficou, e na minha cabeça surgiu aquela canção que fui cantando aos meus filhos. Sou adulto, mas acredito na magia, e estou aqui, no teu bosque.

- Olhem – gritou Gonçalo – as árvores!

Todos se viraram para o sítio para onde o menino apontava e ficaram boquiabertos. Às árvores pareciam ganhar nova vida, e levantavam-se imponentes para o céu, abrindo os galhos para receber milhares de luzinhas que pareciam cair do meio das estrelas e se instalavam no bosque!

O Rei Pirilampo começou a chorar de alegria, há muitos anos que não via os seus irmãos pirilampos que agora voltavam ao bosque, era dia de novo, e o bosque ganhava subitamente uma nova vida. Aquele som inconfundível do riso das fadas criava uma melodia no ar, mas Guilherme, Gonçalo e Martinho sabiam que esse era o ritmo da música que todas as noites os embalavam.

Começaram os três a cantar acompanhados pelo riso das fadas - À noite no bosque, há lá pirilampos, à noite no bosque, há boa energia, à noite no bosque brincamos cantamos, à noite no bosque há muita magia. E vêm as fadas, e vêm duendes, e os meninos brincam contentes.   

A noite parecia não acabar, todos brincaram e cantaram, duendes e meninos, Rei Pirilampo e o pai dos meninos, fadas, pirilampos e árvores, no lago os patos e cisnes já não dormiam, faziam corridas dentro de água, felizes da vida. A lua sorria novamente no meio do lago.

Quando os primeiros raios de sol apareceram já muitos se tinham retirado, e ficara só o pai com os seus três filhos, e o Rei Pirilampo.

- Nunca mais me vou esquecer – disse o pai – vou cantar para todos os que me quiserem ouvir a canção do bosque, vou fazer como o Guilherme e cantar ao ouvido daqueles que não me quiserem ouvir, vou passar a mensagem para o mundo dos Homens, não podemos deixar desaparecer a magia, a imaginação. Até breve Rei Pirilampo – disse o homem já com Guilherme a dormir às suas cavalitas, com a sua cabecinha cor de ouro encostada à sua, e os manos Gonçalo e Martinho, que ao colo do pai dormiam também, embalados por uma noite de folia.

- Até breve amigo – disse agradecido o Rei Pirilampo, que voltara a brilhar como há muito não se via naquele bosque. E voltou a sentar-se, a olhar para o lago do seu bosque, mas desta vez o olhar era de pura felicidade, os Homens voltavam a acreditar na magia, e havia esperança…

Craque

Ontem o pirralho mais velho lá de casa, no alto dos seus 3 anos, começou, leiam bem, a ter futsal na escola! Pois é, ainda mal se aguenta em pé e já se aventura a dar uns chutos na bola. Ontem, no fim do primeiro treino, já trazia os tiques de craque, e chegou ao pé de mim a queixar-se de uma lesão no cotovelo. Ossos do ofício meu filho, ossos do ofício...